AirPods
AirPods foi a categoria que nasceu dentro da divisão de hardware de John Ternus em 2016. Em 2025, AirPods sozinho representa mais receita anual que todo o ecossistema Roku — e é o caso mais claro de 'categoria nova bem executada' do era pós-Jobs.

Os AirPods foram anunciados em 7 de setembro de 2016, junto com o iPhone 7. Naquele momento, John Ternus já era VP de Hardware Engineering há três anos sob Dan Riccio, e a divisão de AirPods reportava-se a ele. Os AirPods nasceram dentro do portfólio Ternus.
Dez anos depois, AirPods sozinho representa mais receita anual que toda a empresa Roku — uma estimativa conservadora coloca AirPods em US$ 18–22 bilhões/ano, quando Roku faz cerca de US$ 4 bilhões. É o caso mais claro de “categoria nova bem executada” da era Apple pós-Jobs, e é o produto que valida estruturalmente a tese de uma divisão de hardware capaz.
A aposta de 2016 — entrega via remoção do jack
O momento de lançamento do AirPods foi tatico. Setembro de 2016 foi quando a Apple removeu o jack de fones de ouvido do iPhone 7. A controvérsia foi imensa — “Apple está roubando o jack para vender AirPods” — mas a aposta foi direta. Apple estava fazendo duas coisas simultaneamente:
- Forçar a transição para áudio Bluetooth numa categoria onde a indústria estava parada em adapters.
- Diferenciar o ecossistema com pareamento instantâneo via chip W1 (depois H1, H2) que outros fones Bluetooth não conseguiam replicar.
Quem comprou iPhone 7 sem AirPods sentiu fricção. Quem comprou ambos teve a primeira experiência de áudio sem cabo na escala de massa. A Apple normalizou Bluetooth headphones em todo o mercado consumer-side em três anos.
A cadência de produto AirPods
| Modelo | Lançamento | Marco |
|---|---|---|
| AirPods (1ª geração) | b.2016.09.07 | Categoria estreia. Chip W1, 5 horas de bateria. |
| AirPods (2ª geração) | b.2019.03.20 | Chip H1, “Hey Siri”, 50% mais bateria de standby. |
| AirPods Pro (1ª geração) | b.2019.10.30 | Cancelamento de ruído ativo (ANC). Tier “Pro” estreia. |
| AirPods Max | b.2020.12.15 | Headphone over-ear premium. US$ 549. Tier “Max” estreia. |
| AirPods (3ª geração) | b.2021.10.18 | Spatial Audio nos AirPods convencionais. |
| AirPods Pro (2ª geração) | b.2022.09.07 | Chip H2, ANC 2x melhor, USB-C (later). |
| AirPods (4ª geração) | b.2024.09.09 | ANC nos AirPods convencionais, primeira vez. |
| AirPods Pro 3 | b.2025 | Sensores de saúde (temperatura, frequência cardíaca). |
Os chips W1, H1, H2 — a infraestrutura silenciosa
A história sub-narrada do AirPods é que ele introduziu uma família inteira de chips Apple custom que rodam em paralelo aos chips A do iPhone:
- W1 (2016) — primeiro chip Apple custom para wireless audio. Pareamento instantâneo via iCloud.
- H1 (2019) — substituiu W1, reduziu latência, adicionou “Hey Siri”.
- H2 (2022) — dobrou ANC, adicionou novo som conversational, reduziu latência ainda mais.
Essa família de chips é a contraparte “wearable” da família A (iPhone), da família S (Watch), e da família M (Mac). Ternus dirigiu o portfólio inteiro. Cada chip é um tape-out de risco multimilhões de dólares, e o portfólio Apple wearable+mobile combinado é provavelmente o maior orçamento de chip-design fora de Intel/AMD/NVIDIA/Qualcomm.
AirPods Max — o produto que vendeu mesmo sendo caro
Em dezembro de 2020, Apple lançou os AirPods Max — fones over-ear premium em alumínio, US$ 549. A imprensa foi unânime: “caro demais, ninguém vai comprar”. As vendas foram tão fortes que os AirPods Max ficaram em estoque limitado pelos primeiros nove meses. Apple Bluetooth headphones de US$ 549 venderam contra Sony e Bose — categorias historicamente Apple-resistentes.
A lição da AirPods Max: a divisão de hardware sob Ternus consegue abrir tiers de preço acima do que a indústria considera viável quando a engenharia é boa o suficiente. Esse padrão se repete depois com Apple Vision Pro a US$ 3.499.
Spatial Audio como diferenciador defensável
A introdução de Spatial Audio em 2021 foi a primeira vez que AirPods saiu da competição “fones wireless” e entrou na competição “tecnologia de áudio imersivo”. Spatial Audio depende de:
- Hardware específico (sensores de orientação no AirPods Pro/Max),
- Software específico (Dolby Atmos rendering on-device),
- Conteúdo específico (parcerias com Apple Music, Apple TV+).
É um tipo de moat que só uma empresa que controla hardware-software-content pode construir. Outras marcas Bluetooth não podem competir em Spatial Audio porque não controlam todo o stack.
A próxima fronteira: AirPods como dispositivo de saúde
Em 2025, AirPods Pro 3 estreou sensores de frequência cardíaca, temperatura, e detecção de mudança postural. É o início de uma transição que muitos analistas previram desde 2018: AirPods deixa de ser “fones wireless” para virar dispositivo de saúde wearable com áudio como feature.
Esse posicionamento se conecta diretamente à estratégia Apple Watch (saúde + sensores) e seria coerente com a Apple sob Ternus como CEO: hardware-pesada, sensores integrados, ciclo de vida longo.
Especificações resumidas (geração atual)
- AirPods Pro 3: chip H3, ANC adaptativo, sensores de frequência cardíaca + temperatura, USB-C.
- AirPods 4: chip H2, primeira geração convencional com ANC.
- AirPods Max: chip H1 (em revisão para H3), 20 horas bateria, USB-C.
- Cadência: geração mainstream a cada 18-24 meses; geração Pro a cada 36 meses.
Veja também
- Apple Vision Pro — a outra categoria “wearable” sob Ternus.
- iPad Pro 2018 — primeira apresentação de Ternus em palco.
- Família M (Apple Silicon) — a divisão silicon-design irmã.
- O que significa ter um CEO de hardware? — análise da estratégia.